Autopercepção de sobrepeso e o medo do estigma podem levar à obesidade

A consciência do próprio estado de excesso de peso pode parecer uma motivação para o emagrecimento. No entanto, pesquisadores perceberam que esta percepção têm sido frequentemente associada a excessos na alimentação e consequente ganho de peso.

No estudo Weight Perception, Weight Stigma Concerns, and Overeating, publicado no jornal Obesity, da The Obesity Society, pesquisadores reuniram os resultados de dois estudos que, juntos, analisaram 1236 adultos nos Estados Unidos. O principal objetivo era verificar se a preocupação com o estigma do peso pode explicar a relação entre a percepção de sobrepeso, os excessos na alimentação e o ganho de peso.

Em ambos os estudos, a relação transversal entre a autopercepção de sobrepeso e o excesso de peso foi, em parte, explicada por preocupações com o estigma do peso. Os participantes que percebiam seu sobrepeso relataram maior preocupação quanto ao estigma do que os participantes que avaliavam o seu peso como adequado.

 

O estigma de peso

O preconceito contra pessoas com excesso de peso, bem como associá-las a estereótipos depreciativos são exemplos de estigmas de peso, cada vez mais frequentes em todo o mundo. Crescem à medida em que a obesidade se alastra, trazendo consequências trágicas, por vezes até mesmo fatais.

Diante deste cenário, as preocupações com o estigma do peso têm explicado por que a percepção do próprio excesso de peso pode estar associada a uma tendência de comer excessivamente, agravando ainda mais a obesidade. Esta associação deriva da preocupação em ser avaliado negativamente, rejeitado ou evitado.

Pesquisas anteriores mostram que as mulheres são mais propensas a temer a rejeição social por causa de seu peso. Em um contexto experimental, a exposição a informações estigmatizantes sobre tamanhos corporais maiores promoveu o aumento da ingestão alimentar em mulheres com sobrepeso e também naquelas se consideravam com sobrepeso, ainda que apresentassem peso adequado.

O medo de ser estigmatizado revelado neste estudo independe dos indivíduos já terem experimentado discriminação ou maus-tratos por causa de seu peso corporal e representam uma forma de ameaça à identidade social. Como consequência, vem o estresse que, supostamente, estimula o excesso de alimentação.

Assim, a autopercepção de sobrepeso é mais um fator de risco para o ganho de peso, esteja o indivíduo com peso normal ou sobrepeso.

O estudo

Os participantes do estudo tiveram registradas informações como idade, sexo, etnia, renda anual e nível de escolaridade, bem como altura e peso, que foram utilizados para o cálculo do IMC. A presença de doenças crônicas também foi verificada.

Para o estudo, foram controlados outros fatores que poderiam confundir as relações de interesse, incluindo variáveis ​​demográficas e de saúde e variáveis ​​psicológicas, como depressão ou insatisfação corporal.

Primeiramente, foram solicitados a descrever seu peso em uma escala de seis pontos: muito abaixo do peso, abaixo do peso, peso adequado, sobrepeso, muito acima do peso ou obeso . Com base em suas respostas, foram divididos em duas categorias: autopercepção de peso normal, representando a categoria de referência; e autopercepção de sobrepeso, para aqueles cujas respostas variaram de excesso de peso a obeso.

As preocupações com o estigma de peso foram avaliadas a partir de cinco afirmações, do tipo “preocupa-me que a opinião de outras pessoas sobre mim seja baseada no meu peso”. Os participantes assinalaram opções de 1 a 7 na escala de Likert, sendo que 1 era “discordo fortemente” e 7 “concordo totalmente”. As respostas foram somadas e os valores mais altos indicaram maior preocupação com o estigma do peso.

Também completaram uma medida de excessos induzidos por estresse, indicando em que medida normalmente se envolvem nos seguintes comportamentos quando estressados: “comer mais do que o habitual para melhorar meu humor” e “comer mais dos meus alimentos favoritos para melhorar meu humor”. Cada item foi identificado pela escala de Likert de 4 pontos, que varia de 1, “nada”, a 4, “muito”. Foi calculada, então, a média das respostas, com maiores pontuações indicando maior tendência a comer demais quando sob estresse.

Outras escalas foram utilizadas para avaliar o nível de depressão; o neuroticismo, ou instabilidade emocional para experimentar emoções negativas; a percepção de situações de discriminação ao longo da vida por conta do peso, autoestima, insatisfação corporal e o nível de atividade física praticada pelos participantes.

Aqueles que falharam na verificação de atenção, que tinham autopercepção de estar abaixo do peso e menores de 18 anos foram excluídos do estudo.

Conclusão

Os dois estudos trazem evidências da relação entre autopercepção de sobrepeso e tendência a comer em excesso, bem como preocupações com o estigma do peso explicando esta relação. Esse padrão de resultados foi observado independentemente do gênero ou se a autopercepção do excesso de peso era precisa ou imprecisa.

A autopercepção do sobrepeso tem se mostrado associada a uma série de desfechos negativos à saúde, incluindo sintomas depressivos e ideias suicidas. Portanto, seria importante avaliar as preocupações com o estigma do peso e verificar entre os pacientes outras questões destacadas neste estudo.

Vale destacar que a autopercepção do excesso de peso está associada a um pior controle de peso em longo prazo, mas em um primeiro momento, está associada à tentativa de perda de peso tanto entre adultos como em adolescentes com sobrepeso. Por este motivo, a falha de indivíduos com excesso de peso para identificar com precisão seu status de peso é, também, fator de preocupação, visto que essa falha possa levar a um controle de peso ineficaz.

Fonte: ABESO