Qual o real benefício e impacto de uma medicação para tratamento da obesidade?

Para uma medicação ser aprovada pelo FDA (Agência reguladora americana), uma medicação, além de demonstrar segurança, deve também, em estudos clínicos, atingir uma perda de peso maior do que 5% em relação ao grupo placebo (ou seja, que não usa a medicação), ou que ao menos 35% dos pacientes atinjam uma perda mínima de 5% do peso (ou que seja o dobro do grupo placebo).

Mas isso não é muito pouco, dirão alguns?

Para a maioria das pessoas que buscam perda de peso, perdas ao redor de 5-10% do peso são sim pequenas e podem decepcionar à primeira vista, mas devemos levar alguns pontos em consideração:

1- a média de perda de peso com dieta e exercício, em estudos bem feitos, em que houve um controle enorme por parte dos profissionais de saúde para garantir adesão é ao redor de 3 kgs. Entre os respondedores, apenas 10% das pessoas conseguem perder ao menos 10% do peso e manter no longo prazo. Portanto, simplesmente dizer “é fácil, é só fazer dieta e exercício e pronto” não se baseia em nenhum estudo de evidência e todo mundo que trata pacientes obesos sabe disso.

2 – o tratamento não é “só” medicação – todos esses estudos, tanto o grupo que toma a medicação, como o grupo placebo, fazem modificação de estilo de vida, portanto não é medicação versus dieta e exercício e sim uma soma. Assim, o grupo placebo muitas vezes perde sim um pouco de peso, fazendo com que, embora a diferença possa ser na casa de 5%, o grupo que tomou remédio perdeu mais.

3- a “média” é um conceito falho, pois engloba pacientes que não perderam absolutamente nada, com pacientes que usaram a medicação por poucos dias e pararam (seja por efeito colateral, ou porque simplesmente abandonaram o tratamento, que é comum em obesidade, infelizmente), com aqueles que conseguiram perdas maiores, que são chamados os respondedores. Os que não perdem nada pararão o uso e tentarão outras opções, reservando o uso a longo prazo àqueles que conseguem mantê-la.

3- perdas de peso na casa dos 5-7% já são suficientes para melhorar muitos fatores de risco associados à obesidade como hipertensão, apnéia do sono, hipercolesterolemia. Cada kg de peso reduz o risco de desenvolvimento de diabetes em 17%. Perdas acima de 10% podem estar associadas a redução de mortalidade e acima de 15% são suficiente spara causar redução importante de inflamação, que é um fator de risco enorme para doenças cardíacas. Ou seja, analisando os bons respondedores, podemos ter pacientes que se beneficiam muito.

4- uma outra maneira de analisar a eficácia das medicações é observando qual a chance de um paciente atingir um determinado porcentual de perda de peso com a medicação e dieta versus só a dieta. Temos muitas medicações, mas um número que vemos em algumas (como a liraglutida, que nos estudos sempre faz essa análise) é ao redor de 3. Ou seja, uma pessoal, engajando em um programa de perda de peso completo tem 3 vezes mais chance de atingir um resultado significativo com o remédio do que sem ele. Isso garante 100% de certeza? Não, longe disso. Mas pode modificar a vida de muitas pessoas.

Ou seja, medicações não são milagres, com objetivo de “secar” as pessoas para o verão. São opções com limitações, mas que podem ajudar muito a vida de pacientes que sofrem com obesidade, que é tão difícil de tratar e tão estigmatizada na sociedade.

Lembro também que a escolha da medicação leva em conta diversas características do paciente, assim como contra-indicações. Nem todos podem usar todas as medicações, e é função de um profissional médico sério escolher as opções baseado em tudo isso, e saber reavaliar o paciente para trocar, se assim for necessário. Além disso, as medicações aprovadas para tratamento da obesidade e vendidas em farmácia (no Brasil temos sibutramina, liraglutida e orlitate, e a lorcaserina aprovada, mas ainda não vendida) passaram por crivo de estudos de segurança, e podem ser usadas no longo prazo (embora a sibutramina seja contra-indicada em quem tem doença cardiovascular prévia, por poder aumentar ligeiramente a pressão, principalmente nos que perdem pouco peso com ela). A liraglutida possui estudos de segurança em população diabética de alto risco e mostrou não só segurança, como redução de eventos cardiovasculares nessa população. E uma análise de estudos para obesidade sugere (embora não seja um dado definitivo), que o mesmo ocorra em não diabéticos.

Obesidade é doença crônica e o tratamento seja qual ele for (remédios, dieta, exercício) deve ser crônico também, pois, como sempre digo, manter o peso é como andar numa escada rolante ao contrário, sempre reforçando a importância da dieta, exercício, vigilância e aprendizado de hábitos saudáveis.

Esse texto é um desabafo a absurdos que leio em redes sociais, muitas vezes escritos por “influenciadores digitais” com grande número de seguidores, que entram em áreas que não dominam, com zero responsabilidade, falando mal de medicações e criticando médicos que os prescrevem, fazendo com que pessoas que as vêem como formador de opinião abandonem tratamentos bem indicados, e ainda passem a questionar a honestidade e competência dos médicos. Vivemos numa era difícil, bem difícil, mas devemos fazer nossa parte.

Fonte: http://www.abeso.org.br/noticia/opiniao-qual-o-real-beneficio-e-impacto-de-uma-medicacao-para-tratamento-da-obesidade-